Pérola Negra

Enquanto passeava pelo universo,
Reparei num planeta rochoso.
Era muito escuro, preto.
Parecia ter o tamanho de marte.
Parecia um berlinde visto de longe.
Que ali se afirmava com altivez.
Imaginei-me nele
E logo estava lá.
O terreno surpreendeu-me.
Era todo feito de mármore preto.
Como o mármore da cozinha.
Todo.
Não tinha árvores,
Nem terra,
Nem água,
Nem montanhas.
Mármore preto.
Só mármore preto.
Era um berlinde gingante.
O chão estava nivelado.
O mármore estava polido.
O horizonte era um arco perfeito
Que mal se distinguia do fundo negro do cosmos,
Não fosse o brilho imaculado e solitário
Daquela enorme esfera maciça.
O brilho das estrelas, vermelhas, azuis, verdes
Refletia-se na superfície pura como neons no vidro claro e limpo.
Uma planície rochosa negra.
Caminhei no mármore escuro.
Passo a passo.
Descalço no mármore perfeito.
Brilhante.
Admirei a beleza daquele planeta,
Que bela criação.
Caminhei vários quilómetros.
De súbito avisto formas no horizonte.
Parecem estar a mover-se.
Aproximo-me com precaução,
Mas curioso.
Eram milhares de seres.
Seres do universo.
De todas as espécies.
Uma multidão diversificada.
Seres de todas as cores, texturas, tamanhos, idades
Com um número variával de membros.
Seres verdes e rosa,
Seres azuis e laranja,
Seres fluroescentes,
Seres negros como o carvão,
Seres brancos.
Com dois braços, quatro braços,
Duas pernas, quatro pernas, seis pernas,
Com cauda, duas caudas até três caudas.
Alguns com garras,
Alguns com bicos.
Seres de dois metros de altura.
Seres de meio metro.
Seres com penas, com pelo espesso, com poucos pelos,
Com escamas de peixe, escamas de réptil ou viscosos.
Seres translúcidos, brilhantes.
Todos faziam o mesmo.
Todos empurravam uma máquina.
Alguns empurravam mais que uma.
A máquina era igual para todos.
Cizenta.
Milhares de seres apáticos numa linha que se estendia por quilómetros.
Andavam para a frente.
Empurrando as máquinas.
Milhares de máquinas sem cor.
Milhares de máquinas sem cor num belo planeta de mámore polido.
Poliam,
Poliam,
Poliam…

Junto à Piscina

Estavas quase despida junto à piscina.
A tua pele suave refletia a a luz do sol.
Por momentos fiquei parado
A olhar para ti
A contemplar-te
Imaginei que te viravas de repente
Sorrias
E piscavas o olho
Com uma pausa final
Como se fosses uma estátua
Para manter a tensão.
Danças suavemente
Balouçando de um lado para outro
Com um copo na mão
O cabelo solto
Flutua
Brilhante,
Será que és real?
Não serás apenas a projeção do meu conceito de beleza pura
Materializado num momento junto à piscina?
Deve ser um sonho,
Devo estar quase a acordar.
Acho que não conseguiria tocar-te.
Se tentasse
As minhas mãos provavelmente passavam pelo teu corpo
Translúcido
Imaterial
E a única sensação seria
Algo como
Sentir o calor do sol na palma da mão.
Separados pelo tempo
Separados pelas circunstâncias.
Tu deslizas pela energia
E eu arrasto a matéria comigo.
Talvez possas ensinar-me a deslizar essas ondas que desconheço.
E quanto te cansares podes voltar para o porto na falésia rochosa.